A inteligência artificial ganhou espaço rapidamente na rotina das empresas. Modelos capazes de analisar grandes volumes de dados já eram utilizados em diferentes aplicações, mas foi a chegada da IA generativa que tornou essa transformação muito mais visível. Em poucos anos, ferramentas capazes de produzir textos, imagens e códigos, responder perguntas e apoiar decisões passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas.
Robôs, no entanto, não são novidade na industry. Há décadas eles executam tarefas, movimentam materiais e participam de processos produtivos. O que explica, então, a ascensão da IA Física justamente agora? A resposta está menos no surgimento de um novo tipo de robô e mais na evolução da inteligência que começa a ser incorporada às máquinas. A IA que avançou no ambiente digital passa a chegar também a robôs, veículos e outros equipamentos capazes de interagir diretamente com o mundo real.
Para Renate Fuchs, diretora de Supply Chain & Engineering da Accenture, a transformação atual precisa ser compreendida como parte de uma trajetória mais ampla da própria inteligência artificial. O tema esteve entre as discussões do Pollux Connect, encontro promovido pela Pollux em Joinville para debater movimentos que começam a transformar a manufatura. Renate participou da programação trazendo uma perspectiva sobre o avanço da IA do ambiente digital para o mundo físico e seus impactos para a industry.
Machine learning trouxe avanços na análise e identificação de padrões; deep learning ampliou possibilidades como as relacionadas aos sistemas de visão; a IA generativa acrescentou capacidade conversacional e criativa; e a IA agêntica avança sobre raciocínio e ação autônoma. Esses movimentos criam condições para uma nova etapa. “Tudo isso é caminho e é importante para que a IA Física entre em campo, que é, de fato, a ação da IA no mundo físico, no mundo real”, explica Renate.
Quando a inteligência ganha um corpo
Há décadas, robôs executam tarefas repetitivas, movimentam peças, operam em ambientes de risco e contribuem para elevar produtividade, precisão e segurança. Ao longo desse período, sensores, sistemas de visão, conectividade, IoT e outras tecnologias aumentaram progressivamente suas capacidades. O que começa a mudar agora é o nível de inteligência que pode ser incorporado a esses equipamentos.
Em vez de apenas executar movimentos e sequências previamente definidos, a evolução da IA abre caminho para sistemas capazes de combinar percepção, raciocínio e ação: captar informações sobre o ambiente, interpretá-las, tomar decisões e agir no mundo físico.
Isso ajuda também a desfazer uma associação frequente entre IA Física e robôs humanoides. Embora tenham ganhado grande visibilidade e sejam uma das manifestações mais evidentes dessa transformação, eles representam apenas uma das possibilidades. “A parte importante de tudo isso que a gente está falando não é o hardware, é o cérebro”, afirma Renate. “É o fato de a gente poder trabalhar percepção, raciocínio e ação no hardware.”
Renate define essa possibilidade como uma espécie de “inteligência universal para qualquer forma”. Ela pode estar em um humanoide, mas também em um robô móvel autônomo, braço robótico, drone, veículo ou equipamento industrial. O ponto central, portanto, não é a forma física assumida pela máquina, mas a capacidade de incorporar percepção, raciocínio e ação.
Da programação ao aprendizado
Essa mudança também começa a alterar a maneira como os robôs são preparados para executar suas funções. Na automação convencional, boa parte do comportamento de uma máquina é determinada por programação e regras previamente estabelecidas.
Com o avanço da IA, cresce a possibilidade de treinar robôs a partir da observação e dos próprios movimentos humanos. Parte desse treinamento também pode acontecer em ambientes digitais antes que o equipamento seja colocado na operação real. “Eu posso fazer todo o treinamento dentro de ambientes digitais. Isso possibilita treinar esses robôs no mundo digital sem ter que colocar na fábrica, sem ter que testar, sem ter que bater em alguma coisa”, exemplifica Renate.
A simulação ganha importância porque o desafio industrial não está apenas em fazer um equipamento cumprir determinada tarefa. Ele precisa funcionar em um ambiente no qual convivem pessoas, máquinas, sistemas, fluxos logísticos e inúmeras variáveis operacionais.
Por isso, a capacidade de criar representações digitais da operação permite testar cenários, avaliar configurações e antecipar problemas antes da implantação física. “Não é só sobre a atuação do robô. É sobre como esse robô vai fazer parte de uma organização completa dentro da fábrica.” A simulação, nessa perspectiva, deixa de servir apenas para testar o comportamento individual de uma máquina. Ela permite avaliar previamente como robôs, equipamentos e sistemas estarão integrados e orquestrados diante das demandas reais da operação.
Na prática, essa abordagem permite analisar como diferentes níveis de automação podem funcionar, como os equipamentos interagem e de que forma mudanças de layout, volume ou demanda afetam a operação. A simulação passa, assim, a apoiar decisões de engenharia e investimento antes que mudanças sejam realizadas no ambiente real.
IA Física também é sobre dados e integração
Se a IA Física leva inteligência para máquinas e robôs, a capacidade desses equipamentos de atuar de forma mais inteligente depende de algo que a industry já conhece bem: dados e integração. Esse é um ponto especialmente relevante porque uma fábrica pode ter equipamentos avançados e, ainda assim, encontrar dificuldades para extrair valor deles quando sistemas, máquinas e informações permanecem desconectados.
Durante sua apresentação, Renate chamou atenção para situações em que empresas investem em diferentes tecnologias e descobrem durante a implantação que os sistemas não se comunicam adequadamente. O impacto pode aparecer em atrasos, dificuldades para alcançar os volumes planejados, retrabalho e perdas financeiras.
Por isso, preparar-se para uma industry com níveis crescentes de inteligência não significa apenas investir em novos robôs. “Quando a gente fala de IA Física, a gente está falando de dados. A gente está falando de integrações importantes.”
Segundo Renate, aumentar a maturidade de OT (Tecnologia Operacional) e sua integração com TI (Tecnologia da Informação) torna-se tão importante quanto avançar na própria automação. Sem dados disponíveis e conectados aos processos, fica limitada a capacidade dos sistemas de compreender o que está acontecendo e tomar decisões a partir dessas informações.
A transformação, portanto, não acontece apenas no robô. Ela exige uma arquitetura capaz de conectar inteligência artificial, equipamentos, sistemas e processos.
Da automação para níveis maiores de autonomia
Quando percepção, dados, inteligência e capacidade de ação começam a convergir, outra mudança se torna possível: máquinas que deixam de depender exclusivamente de comandos previamente definidos e passam a tomar determinadas decisões a partir das condições da operação.
É a passagem de um modelo baseado predominantemente em automação para níveis crescentes de autonomia. “A gente sai da automação da industry para a autonomia, onde os robôs e as máquinas podem perceber o ambiente e tomar suas próprias decisões”, sintetiza Renate.
Isso não significa imaginar fábricas em que equipamentos passam a decidir tudo sozinhos. Autonomia industrial envolve diferentes níveis e precisa estar associada a requisitos de confiabilidade, segurança e controle. Mas representa uma mudança importante: diante de ambientes cada vez mais dinâmicos, sistemas capazes de interpretar condições e adaptar respostas podem contribuir para operações mais flexíveis.
Essa capacidade pode ser especialmente relevante em situações nas quais as variáveis mudam constantemente e programar previamente todas as possibilidades se torna difícil ou pouco eficiente.
Por que esse movimento acontece agora?
A resposta não está em uma única tecnologia. A IA Física começa a ganhar espaço justamente porque diferentes avanços amadureceram e passaram a convergir.
A evolução dos algoritmos ampliou a capacidade de percepção e raciocínio; sensores permitem capturar mais informações do ambiente; conectividade e integração disponibilizam dados; simulações possibilitam treinar e testar comportamentos no mundo virtual; e a robótica oferece os sistemas físicos capazes de transformar decisões em ações. Ao mesmo tempo, pressões concretas da industry aumentam o interesse por essas possibilidades.
Entre elas está a disponibilidade de mão de obra. Renate relata que, em alguns mercados e regiões industriais, a dificuldade de encontrar profissionais já começa a modificar a própria lógica dos projetos de automação. Em determinadas situações, a discussão deixa de ser apenas quanto a tecnologia pode gerar de retorno financeiro e passa a considerar a necessidade de manter a operação funcionando diante da escassez de pessoas para determinadas atividades.
Ao mesmo tempo em que a tecnologia avança, dois temas ganham importância nessa trajetória: confiabilidade e segurança. Quanto maior a autonomia de robôs e máquinas e sua interação com pessoas e ambientes menos estruturados, maior a necessidade de comprovar que essas soluções conseguem operar de forma consistente e segura. Para Renate, são questões que precisam caminhar junto com a evolução tecnológica, especialmente à medida que a robótica amplia sua presença dentro e fora das fábricas.
Há também pressões contínuas por produtividade, redução de custos, qualidade e flexibilidade. Para operações existentes, a combinação entre automação e diferentes aplicações de IA pode abrir novas oportunidades de otimização sem exigir necessariamente a construção de uma fábrica completamente nova.
Uma transformação que vai beyond dos robôs
Talvez uma das principais mudanças trazidas pela IA Física seja justamente ampliar a forma como a industry pensa a inteligência artificial. Até aqui, grande parte das aplicações mais conhecidas estava concentrada no universo dos dados: analisar informações, identificar padrões, fazer previsões, gerar conteúdos ou apoiar decisões humanas.
Agora, parte dessa inteligência começa a ganhar meios para agir diretamente no mundo físico. Isso abre possibilidades para robôs e equipamentos mais flexíveis e autônomos, mas também aumenta a importância da integração, da preparação da infraestrutura industrial e de requisitos de segurança e confiabilidade compatíveis com essa nova capacidade de percepção, decisão e ação.
Para as empresas, isso não significa que todas precisem adotar imediatamente as tecnologias mais avançadas. Mas significa acompanhar sua evolução, identificar aplicações que façam sentido para a operação e preparar as bases tecnológicas necessárias para utilizá-las. Mesmo para organizações que ainda não tenham um caso de uso definido, Renate considera importante acompanhar esse movimento e se aproximar dos ecossistemas de hardware e software que estão desenvolvendo essas soluções.
Para Renate, há uma inversão interessante quando essa trajetória é comparada à própria evolução humana. “Na nossa evolução, os corpos vieram evoluindo ao longo do tempo e a inteligência seguiu. Na robótica é o contrário: a gente está falando da inteligência, do cérebro, para o corpo.”
É justamente essa passagem que ajuda a explicar por que a IA começa agora a ultrapassar as fronteiras das telas e dos sistemas digitais. A inteligência já avançou. O próximo movimento é conectá-la ao mundo físico — e, na industry, isso significa aproximar cada vez mais dados, software, engenharia e máquinas capazes não apenas de executar, mas também de perceber, interpretar e agir.
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About a Pollux
A Pollux Automation, fundada em 1996, é uma multinacional brasileira com mais de mil projetos de automação e Indústria 4.0 nas Américas. Entregamos soluções turnkey que integram robótica, visão, IA, gêmeos digitais, software e AMRs para aumentar produtividade e eficiência. Reconhecida por Endeavor, EY, CNI, GPTW e premiada pela Finep, a empresa tornou-se independente novamente em setembro de 2025, mantendo parceria estratégica com a Accenture.